Da Sabedoria à Perfeição
Por Leandro Rodrigues De Moura
Deus criou a alma humana simples e ignorante. Mas, ao criar a nossa alma, Ele não apenas nos lançou no universo como seres que ali viveriam para sempre ignorantes ou numa eterna contemplação. Ele nos deu a capacidade de aprender e de nos aperfeiçoar, nos revestindo assim dos meios necessários ao nosso aprimoramento. Aprimoramento este que nos libertaria de toda sorte de sofrimentos a que a ignorância pudesse nos sujeitar. A permanência num estado de imperfeição nos condenaria a uma vida amarga e miserável, afastada do Criador Universal. Temos então, o dever de buscar o aprimoramento de nossa alma, concorrendo assim para a nossa felicidade.
Na bonança, não tendo nada em que se preocupar, nenhum obstáculo a superar, o espírito se acomoda e não progride. Imerso numa atmosfera onde nada tendo a fazer senão gozar daquilo que lhe é dado, nada há que o estimule a aprender e, assim, se aperfeiçoar. Essa opção seria desconforme aos desígnios do Criador, como depois atestaria nosso mestre Jesus, que nos disse: “Sede pois, vós outros, perfeitos como vosso pai celestial é perfeito”(Mat. V, 48). Não quis, com isso, dizer que devamos nos tornar como Deus, o que seria impossível, mas nos deu um modelo daquilo que devemos buscar: a perfeição.
A provação nos dá os meios necessários ao aperfeiçoamento do espírito, nos oferecendo, por meio de obstáculos, estímulo para a superação. Os obstáculos, não são senão um meio de nos obrigar a evoluir. Aproxima-nos dessa forma, da nossa meta maior, a perfeição, a qual, atingida, nos livra de toda sorte de sofrimentos.
Poder-se-ia perguntar: Por que temos que aprender com o sofrimento? Não poderíamos atingir nossa meta (a perfeição) sem ter que passar por tantas provações? Ora, que mérito teria um homem que sem trabalhar pudesse gozar dos benefícios que o trabalho lhe proporciona?
Ademais, o nosso sofrimento reside na medida exata da nossa imperfeição. Não sofremos se não por nossa própria culpa. Insistindo em vícios de toda sorte e nas imperfeições morais como: a inveja, o ódio, a preguiça, a lascívia, enfim, o egoísmo, pai de todos os defeitos morais do homem. Aquele que se rebela contra os desígnios de Deus, afirma ainda mais a sua ignorância, pois só vê o que lhe é imediato. Não percebe que, tendo uma alma imortal, o sofrimento a que pode ser exposto na vida, não passa de uma ninharia, comparado com o futuro de gozos que poderia ter pela eternidade, se resignando, e buscando se livrar de suas imperfeições.
Mas, de que forma podemos percorrer esse caminho que o Pai celestial nos traçou? Como, podemos nos aperfeiçoar e dissipar o sofrimento da nossa vida? Deus não nos colocou no mundo sem os meios necessários para melhorarmos. Se nos exigiu o trabalho nos deu também as ferramentas para trabalhar. Da mesma forma que Ele alimenta os animais na natureza, alimenta nossa alma nos provendo com os meios necessários para que possamos desvendar os seus mistérios aprendendo e evoluindo. Ele nos deu o pensamento ou, a razão. Através do pensamento podemos descobrir as leis imutáveis de Deus; perceber os nossos erros e imperfeições e nos corrigir.
Exercitando o pensamento, o homem descobre os meios que podem levá-lo para fora do estado de imperfeição que o oprime e faz sofrer. Se perguntando sobre os motivos que o leva ao sofrimento, ele descobre onde está o seu erro e pode assim corrigi-lo. Torna-se um sábio.
A sabedoria é o meio pelo qual podemos atingir a meta que Deus nos prescreveu: a perfeição. Motivo pelo qual estamos aqui e pelo qual passamos por tantas provações.
Mas, o que é a sabedoria? “... a sabedoria tem de fato uma relação com o pensamento, com a inteligência, com o conhecimento, em suma, com certo saber. Mas é um saber muito particular, que nenhuma ciência expõe, que nenhuma determinação valida, que nenhum laboratório poderia testar ou atestar, enfim, que nenhum diploma sanciona. É que não se trata da teoria, mas da prática. Não de provas, mas de provações. Não de experimentações, mas de exercícios. Não de ciência, mas de vida. Que alguns são mais dotados para a contemplação e outros para a ação é verossímil. Mas nenhum dom basta para a sabedoria: estes terão que aprender a ver, aqueles a querer. A inteligência não basta. A cultura não basta. A habilidade não basta. “a sabedoria não pode ser nenhuma ciência nenhuma técnica”, sublinhava Aristóteles: ela tem por objeto menos o que é verdadeiro ou eficaz do que o que é bom, para si e para os outros. Um saber? Claro. Mas um saber viver.
“O máximo de felicidade, no máximo de lucidez. O máximo que pudermos. Mas não de qualquer jeito. Não a qualquer preço. “Tudo que proporciona alegria é bom”, dizia Spinoza; no entanto nem todas as alegrias se equivalem. “todo prazer é um bem”, dizia Epicuro. Isso não quer dizer que todos eles mereçam ser buscados, nem mesmo que todos eles sejam aceitáveis. É preciso escolher portanto, comparar as vantagens e desvantagens... É para isso que serve a sabedoria .”
“Que sabedoria?... quase todos em todo caso, concordam: na idéia de que a sabedoria se reconhece por certa felicidade, por certa serenidade, digamos por certa paz interior, mas alegre e lúcida, a qual é inseparável de um exercício rigoroso da razão. É contrário da angustia, é o contrário da loucura, é o contrário da infelicidade.”
“Perguntar-se como viver é perguntar-se que importância atribuir aos seus deveres. A moral responde à pergunta: que devo fazer? A ética à pergunta: como viver? A moral culmina na virtude ou na santidade; a ética, na sabedoria ou na felicidade. Nenhum “não” basta, é por isso que necessitamos da sabedoria: por que a moral não basta, porque o dever não basta. A moral manda, mas quem se contentaria em obedecer? Mais vale o amor. Mais vale o conhecimento. Mais vale a liberdade. Trata-se de dizer sim: sim a si, sim aos outros sim ao mundo... é isso que significa sabedoria. ...conhecer, compreender, agir. O sábio é um homem de ação, enquanto nós normalmente só sabemos esperar ou tremer. Ele enfrenta o que é, enquanto nós normalmente só sabemos esperar o que ainda não é ou lamentar o que não é ou já não é. Isso é viver a vida em vez de esperar viver. É realizar nossa salvação”
O sábio não é simplesmente aquele que conhece o bem, mas, antes, aquele que o pratica. O sábio é um homem de bem, aquele que pratica a virtude da lei divina. A lei de justiça, de amor e de caridade em sua maior pureza. Não há maior virtude no homem, que a negação de si mesmo em prol do próximo. Neste tipo de negação, não se está aniquilando-se, mas desprendendo-se do seu egoísmo e se elevando rumo ao Pai celestial.
O nosso mestre Jesus nos disse: “Amai os vossos inimigos; fazei o bem Àqueles que vos odeiam e orai por aqueles que vos perseguem e vos caluniam” (Mateus cap. V). Ora, que virtude tem o homem que só ama aos que o amam. Que só faz o bem Àqueles que lhe retribuem. Não seria mais que uma forma de egoísmo proceder dessa maneira, porque assim não se ama o próximo, mas o bem que ele pode vos fazer. Ama-se, dessa forma somente a si mesmo.
O homem de bem:
“Tem fé em Deus, em sua Bondade, em sua justiça e em sua sabedoria; sabe que nada ocorre sem sua permissão e se submete, em todas as coisas, à sua vontade.
Tem fé no futuro; por isso, coloca os bens espirituais acima dos bens materiais.
Sabe que todas as vicissitudes da vida, são provas ou expiações, e aceita sem murmurar.
Faz o bem pelo bem e não espera ser recompensado por isso. Sua recompensa está na satisfação em praticar o bem.
É bom e benevolente com todos, sem preconceitos. Respeita aqueles que não pensam como ele.
Não nutre ódio ou o rancor. Seu guia em todas as circunstâncias é a caridade.
É indulgente para com as fraquezas alheias porque sabe que também tem suas fraquezas.
Não procura defeitos no próximo, antes procura em si mesmo seus defeitos, estudando suas causas busca eliminá-los.
Não procura se elevar acima dos outros, se sujando com a vaidade, mas é humilde e vê as qualidades alheias antes das suas.
Enfim, o homem de bem respeita o próximo e procura tratá-lo como gostaria que lhe tratassem."
“Não é porque o sábio é mais feliz do que nós que ele ama mais a vida. É porque ele ama mais a vida que é mais feliz.
Quanto a nós, que não somos sábios, que somos aprendizes, isto é filósofos, resta-nos aprender a viver, aprender a pensar, aprender a amar.
Isso requer muito esforço, mas também traz muitas alegrias.
Tenha confiança: a verdade não é o fim do caminho; ela é o próprio caminho.”
Parte deste texto foi retirado do livro Apresentação da Filosofia, André Comte-Sponville, cap. 12: A Sabedoria. O Evangelho Segundo o Espiritismo, Allan Kardec, cap.17, Sede Perfeitos.